Roma: negociando com o passado em cada esquina
- Roy Schulenburg
- 6 de mai.
- 4 min de leitura

Roma é uma cidade que exige fôlego, não apenas físico, mas visual. Se Berlim se revelava nas luzes frias e no concreto que absorvia o som, Roma é o oposto absoluto: ela é térmica, ruidosa e solta uma luz que parece vir de dentro das próprias paredes. Essa foi a última parada da Eurotrip de janeiro e do projeto 5 Vértices. Cheguei à capital italiana com o corpo cansado de quatro fronteiras cruzadas, mas empolgado com o peso da permanência e história da cidade.

Parece que Roma é um pouco diferente de outras metrópoles: ela ignora o tempo com toda história que parece recente. Caminhar pelas ruas com a câmera foi importante pra me colocar em um lugar de insignificância com a história do mundo e entender que sou só mais um personagem efêmero diante de um cenário que decidiu ser eterno.

A luz que esculpe a textura
A luz de inverno em Roma tem uma identidade própria. Ela é baixa, dourada e possui uma densidade que parece transformar o ar em algo que você consegue até pegar com as mãos. Enquanto em Paris eu busquei o cinza suave e em Berlim o azul elétrico, em Roma a busca foi pelo ocre. As fachadas dos prédios, os tons de terracota e o mármore criam uma paleta monocromática orgânica que o filme da câmera abraça com fidelidade e um pouco de nostalgia.

Cada raio de sol que atingia uma coluna no Fórum Romano não iluminava apenas, ele esculpia as pedras e fotografar essas superfícies foi um exercício de capturar profundidade. O grão do filme se torna uma ajuda para traduzir a porosidade das pedras que viram impérios subirem e descerem. Não há perfeição digital que substitua a vibração de uma sombra projetada sobre um muro de dois mil anos.
O caos como normal
Existe uma ordem invisível no caos romano. O trânsito é uma sinfonia de buzinas e lambretas que cortam ruas estreitas que mal cabem as calçadas para os pedestres. Trastevere oferece a Roma dos cenários vivos: o bairro funciona como um arquivo de memórias de cenários de diversos filmes, onde bares e restaurantes são pedaços da história visual da Itália.

A fotografia aqui ganha textura: o brilho dos copos com Aperol Spritz sobre a mesa, o desgaste natural das portas de madeira e a luz âmbar que invade as ruas no fim da tarde. Tudo se torna o cenário ideal para registrar as pessoas e as ruas, onde cada janela aberta e cada drink compartilhado mostra que Roma, antes de ser um museu, é um filme acontecendo diante das lentes da câmera.

Em Roma, o "instante decisivo" de Cartier-Bresson acontece a cada esquina e ele disputa espaço com todos os monumentos e história da cidade. O desafio aqui foi filtrar o ruído. Eu não queria apenas a foto do monumento, eu estava buscando a luz que batia no monumento enquanto alguém atravessava a rua apressado com um jornal debaixo do braço. É essa sobreposição do banal sobre o eterno que faz a cidade vibrar.

O ritual do último clique
Fotografar a última cidade do projeto como o "5 Vértices" trouxe um pouco ansiedade controlada. Cada exposição no rolo de filme ganhou um peso maior depois de passar por todas as outras cidades. Em Roma o processo foi mais lento: a paciência que Berlim me ensinou no escuro, Roma me exigiu sob o sol. Esperar a sombra certa projetar-se no Coliseu ou aguardar o fluxo de turistas diminuir e a chuva dar uma diminuida para conseguir continuar clicando e caminhando.
Utilizar o Kodak Ektar aqui foi uma escolha para destacar saturação da cor no sol e na texturas das forma. As características do filme fizeram Roma se tornar a imagem que eu tinha na minha cabeça, depois de tantos filmes e pesquisas de referências. Sob essa luz, as linhas da arquitetura e o grafismo das sombras deram corpo ao imaginário que eu carregava. A imagem final não foi apenas um registro, mas foi uma transformação do que vi e senti na cidade, um caos visual organizado da cidade em uma narrativa de silêncios e formas históricas.

O fim da jornada
Roma foi o ponto final necessário. Se Lisboa foi o início ensolarado, Barcelona o ritmo das ruas, Paris a estética clássica, Berlim os neons e o industrial e Roma foi o lugar onde tudo se fundiu.
Ao rebobinar o último rolo de filme, senti que a missão estava cumprida. Roma não foi apenas o registro de uma cidade, mas o fechamento de um ciclo de observação sobre como algumas cidades da Europa se organizam entre o que permanece e o que passa. A "Cidade Eterna" entregou os quadros finais de uma história que começou com uma curiosidade e terminou com a certeza de que algumas luzes nunca se apagam, elas apenas esperam o próximo rolo de filme para serem reveladas.

As fotos aqui fazem parte de um projeto que incluiu viajar por cinco cidades e registrar essa passagem com fotografia analógica. Chamo esse projeto de 5 Vértices: cada cidade foi um ponto que duas linhas se encontraram, desenhando um mapa que as fotos torna visível. Para cada cidade foi escolhido um filme, com cores e grã o específicos, para tentar transmitir mais o que eu passei por cada um desses locais.

O Kodak Ektar 100 foi a escolha para registrar Roma. Dessa vez a escolha foi pela busca de nitidez e por uma saturação vibrante que fizesse justiça aos tons da cidade. É um filme de grão extremamente fino e baixa sensibilidade (ISO 100), ideal para situações com bastante luz e para destacar os detalhes da arquitetura da cidade. Sua característica mais marcante é a capacidade de reproduzir cores intensas e profundas, transformando o terracota das fachadas e o azul do céu em planos de extremo realismo e energia.
































Comentários