Berlim: entre a luz e o concreto
- Roy Schulenburg
- há 16 minutos
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Berlim começa quando o sol acaba. Enquanto outras capitais europeias se orgulham de seus monumentos iluminados para cartões-postais, Berlim se mostra mesmo em reflexos de luzes frias e superfícies de concreto que parecem absorver o som. Caminhar por suas ruas de noite (e no inverno) é aceitar que a cidade muda de pele. O que era uma metrópole funcional e histórica durante o dia se transforma em uma narrativa de luzes artificiais e sombras longas, onde cada esquina sugere uma cena de um universo de pessoas e experiências.

Foi uma busca por essa Berlim menos óbvia. Eu não procurava só o Portão de Brandemburgo, mas sim o brilho de um letreiro de farmácia refletido em uma poça d'água ou a luz crua de uma estação de metrô deserta. Berlim não tenta esconder suas cicatrizes nem sua modernidade bruta, ela expõe tudo isso com um brilho elétrico que oscila entre o vermelho pulsante e o azul industrial. É uma cidade que não dorme, apenas muda de tom e de frequência.

A química do instante urbano
A escolha por fotografar com o CineStill 800T foi uma tentativa de traduzir o peso dessa atmosfera: abraçar todas as características do filme e os defeitos que ele poderia exibir depois de revelado. O grão do filme traz uma textura que combina com a porosidade das paredes de Berlim, e as luzes fortes ganham tipo uma aura, uma espécie de vibração que parece emanar da própria estrutura da cidade.
Eu busquei aquela melancolia moderna, uma sensação de solidão acompanhada que só as grandes metrópoles oferecem. Existe um silêncio muito específico em Berlim, um intervalo entre o passado pesado e o agora acelerado. Fotografar a cidade foi um exercício de observação e controle de ansiedade: a vontade era fotografar tudo, mas não dava para esquecer que só tinham 36 exposições, aí a paciência precisou fazer parte do ritual nessa hora. No escuro, o tempo de exposição se estende. Você para, observa o fluxo dos carros ou o movimento dos pedestres e entende que a foto não é sobre o objeto, mas sobre como a luz consegue vencer a escuridão por apenas alguns milésimos de segundo.

A memória do vidro e do metal
Minha busca foi tentar capturar essa sensação de que o tempo em Berlim se dobra. Em um momento você está diante de uma construção de vidro futurista e, no reflexo dela, vê a sombra de um bloco de concreto que parece ter parado no tempo há décadas. É uma cidade feita de camadas sobrepostas, onde o novo não apaga o antigo, mas o envolve em um abraço metálico.

Berlim teve o poder de transformar o observador em um personagem solitário de uma trama de algum filme antigo. Parar em frente a um cinema que foi construído em 1928, no único quarteirão que permaneceu intacto a segunda guerra e depois foi um cinema importante para a República Democrática da Alemanha fez eu realmente me sentir em outra época. Onde muitos veriam apenas uma rua vazia ou uma vitrine fechada, o olhar atento encontra uma poesia feita de contrastes. Uma luz vermelha no fim de um corredor escuro ou o brilho fosco do metal nos trilhos do bonde deixam de ser elementos urbanos para se tornarem fragmentos de uma memória que ainda não terminou de ser escrita.
O filme que nunca para de rodar
Entre uma caminhada e outra, a sensação era de estar dentro de uma projeção contínua. A beleza de Berlim não é sutil, ela se impõe com sua estética seca e direta. A busca na cidade não foi por pontos turísticos, mas sim por uma atmosfera específica onde a vida parece ter uma trilha sonora de sintetizadores e passos ecoando no asfalto úmido e frio.

Cada reflexo nos vidros das lojas ou cada silhueta cruzando uma ponte parecia um quadro meticulosamente composto por um diretor de fotografia. No fim das contas, fotografar Berlim é entender que a cidade é um cenário vivo que se revela apenas para quem se dispõe a caminhar com calma e prestando atenção. Ela é parte importante da história, é um filme esperando o momento exato em que a luz e a sombra, a arquitetura e a natureza, as pessoas e os carros, decidem se encontrar para ser revelado.

No fundo, registrar essa cidade foi tentar segurar um instante sobre o que significa viver no agora sem esquecer do passado. Berlim é um filme em exibição constante, silencioso e elétrico, que continua rodando muito depois que a última exposição do rolo do filme foi feita.
As fotos aqui fazem parte de um projeto que incluiu viajar por cinco cidades e registrar essa passagem com fotografia analógica. Chamo esse projeto de 5 Vértices: cada cidade foi um ponto que duas linhas se encontraram, desenhando um mapa que as fotos torna visível. Para cada cidade foi escolhido um filme, com cores e grã o específicos, para tentar transmitir mais o que eu passei por cada um desses locais.

O CineStill 800T foi a escolha para registrar Berlim. Dessa vez a escolha foi pelas características da película e para tentar uma atmosfera cinematográfica para a cidade. É um filme de alma urbana e alta sensibilidade (ISO 800), ideal para quando a luz natural se retira e dá lugar ao tungstênio das lâmpadas e neons. Sua característica mais marcante é o efeito de halation, que cria halos avermelhados ao redor das luzes fortes, transformando postes e faróis em pontos pulsantes.

Como tem alta sensibilidade, ajudou para registrar os ambientes noturno e interiores das estações de metrô, com o equilíbrio de cores puxa para tons frios e azulados que contrastam com o calor das luzes artificiais. Curto muito usar o CineStill 800T para buscar uma estética de ficção científica ou acentuar a melancolia industrial de dias nublados, transformando o contraste pesado da cidade em uma cena de filme que parece ter sido cuidadosamente iluminada por um diretor de fotografia.





























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