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O tempo que se estica: Paris em 35mm

  • Foto do escritor: Roy Schulenburg
    Roy Schulenburg
  • 2 de abr.
  • 4 min de leitura

Caminhar pelas ruas de Paris é aceitar um déjà vu constante. Diferente de algumas capitais do Brasil, onde a modernidade tenta apagar o passado a todo custo, Paris preserva uma cenografia viva, meio teimosa até. De repente, você dobra uma esquina e lá está: o café de toldo vermelho vibrante, ou a livraria de madeira verde que já vi em alguma cena de filme que já assisti.



Foi como se eu estivesse andando meio sem rumo até encontrar a Shakespeare and Company, de Antes do Pôr do Sol, ou o carrossel de Amélie Poulain. Mesmo sendo uma das cidades que mais recebem turistas no mundo, não da pra dizer que ela é ordinária e se apresenta como um destino comum. Pode parecer um pouco clichê dizer isso, mas parece que Paris se comporta como uma narrativa que já conhecemos de cor, mas que só ali, ao vivo, aprendemos a sentir o peso e o ritmo real de cada cena.



A escolha da imperfeição orgânica

A câmera analógica e o filme (no final do texto aqui eu falo um pouquinho mais sobre eles) foram as ferramentas escolhidas para tentar capturar essa sensação de pertencimento. Eu não estava busquei a perfeição técnica ou uma super nitidez do digital, eu busquei a cor que respira, o grão que traz volume e a textura das construções que parecem que absorveram a história.

 


Busquei aquela melancolia misturada com romance que só o processo químico conseguiria me dar. Existe algo na espera pelo revelado que combina perfeitamente com a paciência que Paris exige de quem a visita. Eu não peguei a câmera e fiz a foto por impulso, eu esperei aquele momento  que a luz abraça a pedra e o instante comum se torna, subitamente, eterno. É um exercício de presença que um celular ou uma câmera digitalas vezes nos rouba com uma notificação ou alguma desatenção.



A permanência do instante e o silêncio da luz

A busca foi tentar capturar a permanência de Paris, essa sensação de que o tempo ali se estica e se recusa a passar da mesma forma que os outros lugares. Parece que a cidade quer convencer de que tudo o que realmente importa está acontecendo agora, naquele silêncio entre um gole de café e uma observação da rua, exatamente naquele frame da foto.

 


Paris tem esse poder de transformar o passageiro em algo perene. Ela exige paciência, silêncio e um olhar disposto a encontrar a poesia no que muitos chamariam de rotina. Uma bicicleta encostada em um poste de ferro ou o reflexo da luz suave nas janelas deixam de ser objetos inanimados e passam a ser fragmentos vivos de uma história maior que não para de ser escrita




Entre cafés e fotos

Entre um café e outro, as cenas de filmes que se passaram pela cidade ficavam rodando como se fosse uma projeção de cinema. Não era uma busca por endereços exatos ou pontos turísticos, mas por aquela sensação específica de que a vida, em Paris, sempre parece ter uma trilha sonora própria.



Cada luz que batia nos telhados ou cada conversa ouvida de relance em uma mesa vizinha parecia um diálogo escrito por um roteirista inspirado. No fim das contas, caminhar por Paris é entender que a cidade não precisa de efeitos especiais: ela é o próprio cenário, pronto, esperando apenas que a gente saiba onde posicionar o olhar e quando apertar o botão da Câmera.



No fundo, fotografar essa cidade foi tentar segurar um instante que parece perfeito demais para ser real, parecia um filme em exibição contínua. E talvez seja um filme que continua rodando, silencioso e dourado, muito depois que a luz do sol acaba e o rolo de filme chega ao seu último clique. Paris não termina quando você guarda a câmera, ela apenas espera o próximo olhar atento para recomeçar a projetar sua magia.



As fotos aqui fazem parte de um projeto que incluiu viajar por cinco cidades e registrar essa passagem com fotografia analógica. Chamo esse projeto de 5 Vértices: cada cidade foi um ponto que duas linhas se encontraram, desenhando um mapa que as fotos torna visível. Para cada cidade foi escolhido um filme, com cores e grão específicos, para tentar transmitir mais o que eu passei por cada um desses locais.



Paris é um dos 5 Vértices Para registrar a cidade, escolhi o Kodak Portra 400, que para mim é sobre sutileza e realismo. É um filme de grão extremamente fino e latitude muito grande, o que ajudou bastante nos dias de chuva, sol, luz inconstante, tudo isso ao mesmo tempo. As cores do filme não gritam, elas se revelam em tons pastéis, com uma reprodução de pele com bastante precisão e um equilíbrio de sombras que preserva cada detalhe parisiense. O Portra 400 entrega uma elegância natural, ideal para capturar a luz suave do Sena ou o interior de um café sem perder a naturalidade. É o filme para quem busca uma estética atemporal, com o foco está na textura e na suavidade da transição entre as cores.



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